terça-feira, 17 de março de 2015

Trecho de "Conversações: a respeito da vida selvagem", por Gyorgy Laszlo e Yane Santiago.


Y: As focas do Atlântico Norte transitam com certa dificuldade entre os arquipélagos da região. Não costumam ir muito além das cercanias, a não ser quando - o que é raro - uma foca dessas faz amizade com alguma baleia azul que atravessa o mundo em belas cantorias. As focas do Atlântico Norte têm um olhar desconfiado e sonham que as aves de rapina de bico laranja lhes assassinam, arrancando-lhes os corações, iguarias que tais aves de rapina provariam com total adoração, caso existissem. Nesse mesmo estado onírico, as focas do Atlântico Norte costumam se ver, em algum momento, a dormir nos colos das mesmas aves de rapina de bico de laranja, as quais cantam suaves cantigas de ninar. As focas do Atlântico Norte migram todos os anos para a Ilha de Lícia e nunca sabem se o fazem porque ouvem de lá algum canto atraente ou se o fazem para fugir das aves de rapina - e aí há contradições no estudo: fugiriam das fantasiosas aves de bico laranja ou das garras concretas e temidas dos falcões de bico amarelo?

Y: Ainda bem - para as focas do Atlântico Norte - que elas não são lemingues.

G: A primeira coisa que se deve saber sobre os lemingues é: eles não são suicidas. E se seus corpos tendem a naufragar no abismo das cordilheiras; e se se sentem impelidos ao nado dos afogados; e se se lançam ao chão a fim de se pisotearem; é tudo um engano de suas sinapses contorcidas. E este engano é o que assegura a portentosa ordem da vida.

G: A segunda coisa que se deve saber sobre os lemingues (e este segundo saber se relaciona ao primeiro saber) é: eles não são homossexuais. Porque as fêmeas lemingues são extraordinariamente férteis e, talvez por isso, tenham feromônios avassaladores: os machos são, por assim dizer, “flutuados” ao leito. E se os lemingues se cansam do embriagado perfume das fêmeas no cio e preferem servir à mesa dos machos, é tudo um engano de suas sinapses contorcidas. E este engano é o que assegura a portentosa e inescrupulosa ordem da vida.

G: A terceira coisa que se deve saber sobre os lemingues (e este terceiro saber se relaciona, indiretamente, ao segundo e ao primeiro saber) é: eles não hibernam. E se passam o inverno inteiro escondidos na tosca galeria que constroem, é por medo de servirem de narizes para os bonecos de neve. Estas galerias são simples corredores debaixo do chão gelado que qualquer passo enganado faz desabar; mas ninguém se preocupa com sua extinção porque são muitos, esses lemingues. O que assegura a portentosa e inescrupulosa e também orquestral ordem da vida.

G: A quarta e última coisa que se deve saber sobre os lemingues (e este saber não se relaciona a nenhum outro, nem aos próprios lemingues) é: os lemingues são animais extrardinários porém inúteis para a portentosa e inescrupulosa e também orquestral e enganosa ordem da vida e na disputa de lançamento ectoplasmático já perdem de saída porque (e aí os estudiosos se dividem) ou não há ectoplasma no lemingue ou o ectoplasma prende suas ventosas na grotesca gengivite do lemingue que se não fosse um lemingue seria um excelente competidor de lançamento ectoplasmático.

(Publicado originalmente em Yane saiu para comprar cigarros em Março de 2010).

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