quinta-feira, 19 de março de 2015

A Hiena - por Gyorgy Lazslo


O penitente sem-nome caminha pelas savanas africanas. Perdido na noite inóspita, pensa ouvir demônios gargalhando de sua desgraça. Sente-se perseguido, confuso. Precisou de anos pra entender que estava em uma caçada, como presa, tendo como seu caçador fantasmasdagalhofa.

A hiena parece ter escárnio do que os vivos planejam, uma vez que volta sua dedicação - bastante dispersa, é verdade - ao que apodrece; sua dentição sui generis, com ela já desde o parto – nasce, também, de olhos abertos! - permite comer ossos e outras partes indesejadas e intragáveis das carniças. Hienas marcam território com bosta e se fingem de mortas quando encontram perigo; as fêmeas dominam o bando e as crias, tamanha a agressividade, matam-se umas às outras. Daí talvez decorram as narrativas de que a hiena é malagouro ou de que possui o poder de decisão quanto ao futuro das crianças que nascem à noite: se ri perto da tenda o fedelho crescerá, certamente, como um pária. Há também a história de que grandes bruxas montavam em seu torso, o que me parece bastante fantasioso, uma vez que não é muito estável ao trote: suas patas traseiras, mais curtas que as da frente, dão a ela uma coluna inclinada. A hiena anda em bando. Trintetrês, em média. Sua constituição, traiçoeira e pouco propensa a grandes corridas ou enfrentamentos, faz dela perseguidora paciente e incansável: pode passar dias, passos vagarosos, no encalço de sua vítima. Não são afeitas ao embate físico - um leão sozinho, por exemplo, consegue lidar com dezenas delas com a facilidade comum aos grandes predadores -, caçam sua presa pacientemente – demônios presepeiros na noite – até que morra com medo, sozinha...

Ele segue, caminhando por tempo inestimável; a sua volta uma matilha sardônica a lhe caçar. O som estridente da galhofa lhe tomou aos poucos de modo que já não consegue mais dormir, já não consegue achar sombra onde caibam tantos. Ele luta contra a loucura de ainda estar vivo - indaga, aos berros, porque não lhe comem de uma vez. Elas riem, como antes, como sempre. Talvez lhe ignorem, talvez intuam aquilo que pede - mas não se aproximam. Certa vez, deixou-se deitar no chão quente por tanto tempo que as moscas já lhe cutucavam a pele esperando que se desfizesse em sangue e putrescências; as hienas chegaram o suficiente para farejarem a centelha de vida e logo partiram compreendendo o truque. Foi a única vez que as viu tão próximas.

Numa dessas noites de aflição, parece que foi ontem, lembrou-se que uma tribo do Congo acredita ter sido a Hiena quem trouxe o sol, entre seus 32 ou 34 dentes zombeteiros, para aquecer a terra fria.

Sua gargalhada infame as trouxe pra perto.

(Fevereiro de 2015).

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