quinta-feira, 26 de março de 2015

[libélulas, dragões & labirintos] - por Daisy Serena


Foi naquela noite, enquanto saíamos do teatro e falávamos o texto potente isso, o ator e sua força aquilo, que, num ímpeto de completa despretensão, deixei a mão passar rasteira pela calçada e alcançar a unha-de-vaca, sequinha, assemelhada a um pirocptero, aberta como asinhas de libélula [penso que toda vez quererei sorver as sílabas, uma-a-uma, para sentir no palato o nome-bicho].

Também foi ali, quando me dei conta do fruto em seu devir inseto, que a obsessão se instalou. Primeiro se mostrou com timidez, tentando negar a busca de pareidolias em fragmentos diários - da mancha poeirenta na janela ao chá respingado na toalha - mas, não tardou muito e o tema ocupou o espaço da fala nas conversas com os amigos, enquanto, entre cervejas, rascunhos mondrianos percorriam meus papéis. Na solidão da casa, rodopiava por horas seus quase dezenove centímetros; em meu imaginário, o fruto seco tornara-se fóssil, representação de sua espécie mais antiga [trezentos milhões de anos, num sussurro]. Numa madrugada pensei tê-la perdido, foi quando, meio ao desespero, pelos binóculos velhos, avistei-a no justo instante em que transmutava-se na antena do telhado vizinho. Como em posição de ataque certeiro as patinhas em reza formavam um cesto, morada última da presa a ser triturada.

Seu espectro atingiu tamanha potência que, noutro dia, enquanto banhava-me preguiçosamente, pude ver, pelas gotículas que se fundiam ao excesso de ar quente, pequenos rastros de seu colorir neon. Como num jogo de espelhos, sua lembrança refletida em mil partículas d'água dançava loucamente na esquizofrenia bucólica-urbana de meu banheiro. Naquela manhã, bastou uma caneca de café para ganhar as ruas, eu que ando tão mais acovardada. Quiça se mostre nestes irrompimentos a significação de sua simbologia oriental; força, coragem & misticismo.

Mas, é preciso dizer que, embora, apaixonadamente esteja se dando essa vivencia mimética, não é com afeto de alegria que rememoro os longínquos encontros com o inseto-real. Era com muito terror que se davam aquelas férias, quando papai montava a piscina-de-mil-litros, no quintal de casa, esperando que eu criasse rugas e lhe deixasse em seu silêncio por algumas horas. A brincadeira resistia até o apercebimento da presença nunca solitária, que num zumbido atiçava meus pesadelos mais persecutórios. Tudo resumia-se no pavor de seu voo rasante em meus cabelos bagunçados, tudo era um observar do fundo, como sereia sem canto na espera de sua partida.

Hoje, no entanto, só aguardo teus sinais, tuas formas ainda que abstratas no meu cotidiano. A lembrança deslocou-se para a despretensão pueril daquela noite cênica, propulsora dessa imersão que me povoa há semanas. O fascínio percorre cada uma das cinquenta batidas por segundo, como se minhas fossem as asas. Como se em mim encontrássemos as trinta mil facetas de seu olhar e todas elas apontassem para um espelho, nunca visto antes, ao fundo da sala. Nele, não reside mais a imagem do esqueleto humano, apenas a sombra do que fui encarando-me profundamente, seu pesar repousa em meus traços de dragão pré-histórico.

(Março de 2015).

quarta-feira, 25 de março de 2015

[ninguém pensa no lobo esfomeado] - por Daisy Serena


A fome do lobo não é a fome dos homens. Sua espreita não é pela carne, não é o imaginário do bacon tostado na língua que lhe atrai. Quando compramos a fábula enquanto mecanismo orgânico/fisiológico, já estamos enclausurados na armadilha [fazendo a casinha, dispondo o banquete sobre a toalha]. O lobo & seu sopro, o lobo & sua gula ocupa o espírito, o que vai proporcionar a moral. É ele que tensiona a dignificação do trabalho, é sua presença que nivela os porquinhos.

(Março de 2015)

segunda-feira, 23 de março de 2015

[Antílopes & Vísceras] - por Daisy Serena


"Sim, Simba, mas deixe-me explicar. Quando você morre seu corpo se torna grama e o antílope come ela. E assim, estamos todos ligados no grande ciclo da vida"

Parecia referir-se a outra, que não ela mesma, quando repetia vagarosamente essa frase sob o céu infinito. Como não tivesse sido este ímpeto pueril, redescoberto na vida adulta e burocrática, o propulsor de seu desejo; infiltrar-se pela savana da identidade. Que bonito soou na voz cantante de tantas pulsões, tanta distância. Agora, este tom, assemelhava-se a uma corda beirando o arrebentamento.

Era quase por instinto que buscava desterrar-se, mergulhando, com afinco, na descoberta de cada animal trespassado no tédio das horas. A travessia havia esgotado o próprio sentido, então, o modo era criar outros com urgência; rabiscando traços de encantamento e buscando informações aleatórias que pudesse rememorar até entregar-se a um sono, que era desmaio.

Para o alumbramento bastou um piscar em seus movimentos ágeis. An-tí-lo-pe, palavra que passeia na boca antes de escoar. Tinha a impressão de que o animal havia surgido apenas para preencher este nome, dar significado e corpo. Saltando entre qualidades, invejadas por outros bichanos de nomeação simples, se destacavam em imponência, elegância, rapidez e graça. Graças damos ao seu nome. Passara tardes tentando identificar algumas das noventa espécies que habitam a África, sonhava acordada com aquelas já extintas; antílope azul, matéria onírica de suas abstrações. Exaltava em silêncio as adaptações exigidas para sobrevivência; como era bonito saber que, além da aceleração, havia dança, saltos para todos os lados e o camuflar-se, ser o engano do predador.

Estes momentos faziam quase valer a pena o processo. Mas, a viagem, a tão inspiradora viagem, teimava em timbrar como zombaria. O antílope - numa versão sem quaisquer garbos - confundia-se com seu reflexo. Foi numa noite muito quente, havia me distanciado para buscar o que já caiu em esquecimento, ainda assim, pude ver a camuflagem tomar de empréstimo o vestuário humano. Lembro do risonho sussurrar da hiena esgueirando a nuca exposta, de como permaneceu intacta. Mas, foi na altura dos olhos, mamãe, que o feitiço pousou como uma majestade caída, pata-pós-pata reinou sobre ela, o rei decrépito.

(Fevereiro de 2015).

quinta-feira, 19 de março de 2015

A Hiena - por Gyorgy Lazslo


O penitente sem-nome caminha pelas savanas africanas. Perdido na noite inóspita, pensa ouvir demônios gargalhando de sua desgraça. Sente-se perseguido, confuso. Precisou de anos pra entender que estava em uma caçada, como presa, tendo como seu caçador fantasmasdagalhofa.

A hiena parece ter escárnio do que os vivos planejam, uma vez que volta sua dedicação - bastante dispersa, é verdade - ao que apodrece; sua dentição sui generis, com ela já desde o parto – nasce, também, de olhos abertos! - permite comer ossos e outras partes indesejadas e intragáveis das carniças. Hienas marcam território com bosta e se fingem de mortas quando encontram perigo; as fêmeas dominam o bando e as crias, tamanha a agressividade, matam-se umas às outras. Daí talvez decorram as narrativas de que a hiena é malagouro ou de que possui o poder de decisão quanto ao futuro das crianças que nascem à noite: se ri perto da tenda o fedelho crescerá, certamente, como um pária. Há também a história de que grandes bruxas montavam em seu torso, o que me parece bastante fantasioso, uma vez que não é muito estável ao trote: suas patas traseiras, mais curtas que as da frente, dão a ela uma coluna inclinada. A hiena anda em bando. Trintetrês, em média. Sua constituição, traiçoeira e pouco propensa a grandes corridas ou enfrentamentos, faz dela perseguidora paciente e incansável: pode passar dias, passos vagarosos, no encalço de sua vítima. Não são afeitas ao embate físico - um leão sozinho, por exemplo, consegue lidar com dezenas delas com a facilidade comum aos grandes predadores -, caçam sua presa pacientemente – demônios presepeiros na noite – até que morra com medo, sozinha...

Ele segue, caminhando por tempo inestimável; a sua volta uma matilha sardônica a lhe caçar. O som estridente da galhofa lhe tomou aos poucos de modo que já não consegue mais dormir, já não consegue achar sombra onde caibam tantos. Ele luta contra a loucura de ainda estar vivo - indaga, aos berros, porque não lhe comem de uma vez. Elas riem, como antes, como sempre. Talvez lhe ignorem, talvez intuam aquilo que pede - mas não se aproximam. Certa vez, deixou-se deitar no chão quente por tanto tempo que as moscas já lhe cutucavam a pele esperando que se desfizesse em sangue e putrescências; as hienas chegaram o suficiente para farejarem a centelha de vida e logo partiram compreendendo o truque. Foi a única vez que as viu tão próximas.

Numa dessas noites de aflição, parece que foi ontem, lembrou-se que uma tribo do Congo acredita ter sido a Hiena quem trouxe o sol, entre seus 32 ou 34 dentes zombeteiros, para aquecer a terra fria.

Sua gargalhada infame as trouxe pra perto.

(Fevereiro de 2015).

quarta-feira, 18 de março de 2015

Canção: Cavalos - por Yane Santiago


Para ouvir clique aqui!

Então vem vindo cavalos
Cavalos vem vindo então
Crinas ao vento
Ventas soprando
Músculos tensos
Tendão

Os joules desprendem a grama
O atrito das patas no chão
Os dentes batem, relincham
Recusa ao serviço prisão

Então vem vindo cavalos
Cavalos vem vindo então
Crinas ao vento
Ventas soprando
Músculos tensos
Tendão

O chicote estala e queima
Macula os pelos, é dor
O pescoço se ergue, justiça, ação
Caem chicote e senhor

Então vem vindo cavalos
Cavalos vem vindo então
Crinas ao vento
Ventas soprando
Músculos tensos
Tendão

Ir ao campo distante
Ao campo aqui
Ao campo agora
Cavalos vi

Então vem vindo cavalos
Cavalos vem vindo então
Crinas ao vento
Ventas soprando
Músculos tensos
Tendão

Sobre um dia comum - por Daisy Serena


Entre um gole e outro de café um mosquito transpôs a janela da cozinha. O desespero zumbia perscrutando o território, procurando meus ouvidos, um pouso em minha pele. Foi um instante, mas minha percepção se voltou completa para seu voo, o som da televisão tonara-se sussurro, as crianças da vizinha confundiam-se com o toc-toc do martelo do 302, que já não me endoidecia.

Eu, sujeito oculto em meu castelo-caixa, paralisada pelo encontro, os dedos firmes na caneca, os olhos fixos na luta árdua do mosquito entregue à brevidade de meu pequeno sadismo. Podia sentir o pulsar de um sorriso sobre seu ziguezaguear inquieto, na busca aleatória por uma fenda que o libertasse.

Bastava uma chinelada e toda angustia teria seu fim. Mas, me levantei, afastei a cortina, deixei as nuances quentes, de um entardecer prenunciado, invadirem os pratos e copos preguiçosamente empilhados no escorredor carcomido por ferrugem, que ele tome por si um caminho.

Este instante foi a paz recostada em minha tarde.

(Publicado originalmente em Bucolismo de Cronópios em Fevereiro de 2011).

terça-feira, 17 de março de 2015

Trecho de "Conversações: a respeito da vida selvagem", por Gyorgy Laszlo e Yane Santiago.


Y: As focas do Atlântico Norte transitam com certa dificuldade entre os arquipélagos da região. Não costumam ir muito além das cercanias, a não ser quando - o que é raro - uma foca dessas faz amizade com alguma baleia azul que atravessa o mundo em belas cantorias. As focas do Atlântico Norte têm um olhar desconfiado e sonham que as aves de rapina de bico laranja lhes assassinam, arrancando-lhes os corações, iguarias que tais aves de rapina provariam com total adoração, caso existissem. Nesse mesmo estado onírico, as focas do Atlântico Norte costumam se ver, em algum momento, a dormir nos colos das mesmas aves de rapina de bico de laranja, as quais cantam suaves cantigas de ninar. As focas do Atlântico Norte migram todos os anos para a Ilha de Lícia e nunca sabem se o fazem porque ouvem de lá algum canto atraente ou se o fazem para fugir das aves de rapina - e aí há contradições no estudo: fugiriam das fantasiosas aves de bico laranja ou das garras concretas e temidas dos falcões de bico amarelo?

Y: Ainda bem - para as focas do Atlântico Norte - que elas não são lemingues.

G: A primeira coisa que se deve saber sobre os lemingues é: eles não são suicidas. E se seus corpos tendem a naufragar no abismo das cordilheiras; e se se sentem impelidos ao nado dos afogados; e se se lançam ao chão a fim de se pisotearem; é tudo um engano de suas sinapses contorcidas. E este engano é o que assegura a portentosa ordem da vida.

G: A segunda coisa que se deve saber sobre os lemingues (e este segundo saber se relaciona ao primeiro saber) é: eles não são homossexuais. Porque as fêmeas lemingues são extraordinariamente férteis e, talvez por isso, tenham feromônios avassaladores: os machos são, por assim dizer, “flutuados” ao leito. E se os lemingues se cansam do embriagado perfume das fêmeas no cio e preferem servir à mesa dos machos, é tudo um engano de suas sinapses contorcidas. E este engano é o que assegura a portentosa e inescrupulosa ordem da vida.

G: A terceira coisa que se deve saber sobre os lemingues (e este terceiro saber se relaciona, indiretamente, ao segundo e ao primeiro saber) é: eles não hibernam. E se passam o inverno inteiro escondidos na tosca galeria que constroem, é por medo de servirem de narizes para os bonecos de neve. Estas galerias são simples corredores debaixo do chão gelado que qualquer passo enganado faz desabar; mas ninguém se preocupa com sua extinção porque são muitos, esses lemingues. O que assegura a portentosa e inescrupulosa e também orquestral ordem da vida.

G: A quarta e última coisa que se deve saber sobre os lemingues (e este saber não se relaciona a nenhum outro, nem aos próprios lemingues) é: os lemingues são animais extrardinários porém inúteis para a portentosa e inescrupulosa e também orquestral e enganosa ordem da vida e na disputa de lançamento ectoplasmático já perdem de saída porque (e aí os estudiosos se dividem) ou não há ectoplasma no lemingue ou o ectoplasma prende suas ventosas na grotesca gengivite do lemingue que se não fosse um lemingue seria um excelente competidor de lançamento ectoplasmático.

(Publicado originalmente em Yane saiu para comprar cigarros em Março de 2010).